Dos Sermões de São Pedro Crisólogo, bispo

(Sermo 76,2-3: CCL24 A, 465-467)

Na verdade, é mesmo a Igreja em sua plenitude

que essas duas mulheres personificam

 

O anjo disse às mulheres: Ide contar aos discípulos: “Ele ressuscitou e vai à vossa frente para a Galiléia. Lá o vereis” (Mt 28,7). Assim falando, o anjo não se dirige a Maria Madalena e á outra Maria mas, nessas duas mulheres, é a Igreja que ele envia em missão. É a Esposa que o anjo envia ao Esposo.


Enquanto se iam, o Senhor veio-lhes ao encontro e disse: “Alegrai-vos!” (Mt 28,9). Ele que havia dito a seus discípulos: Não saudeis ninguém pelo caminho (Lc 10,4), como então, acorre, pelo caminho, ao encontro dessas duas mulheres e as saúda tão alegremente? Não espera ser reconhecido, não procura ser identificado, não se deixa interrogar. Mas se apressa, cheio de entusiasmo, para esse encontro, correndo com ardor e, saudando-as, suprime ele mesmo a própria prescrição. Eis o que faz o poder do amor: é mais forte que tudo, supera tudo! Saudando a Igreja, é a si próprio que Cristo saúda, pois a tornou sua e fez dela sua carne e seu corpo, como atesta o apóstolo: Ele é a cabeça da Igreja, que é o seu Corpo (Cl 1,18).


Na verdade, é mesmo a Igreja em sua plenitude que essas duas mulheres personificam; os acontecimentos demonstram com evidência. A seus discípulos, que duvidam da ressurreição, Cristo dá-lhes a certeza, tranquiliza-os, mostrando o lugar dos cravos e o lado e, pela maneira de tomar a refeição, chama-os novamente à fé. É, pois, com justeza que chama filhos àqueles que ainda eram pequeninos na fé, quando pede: Filhos, tendes alguma coisa para comer? (Jo 21,5).


Essas mulheres, ele as encontrou já maduras na fé; dominando suas fraquezas, se apressam para o mistério, procurando o Senhor com todo o ardor da fé. Por isso, mereceram que ele fosse ao encontro delas com essa saudação: Alegrai-vos! Não apenas concede-lhes tocá-lo, mas possuí-lo, na medida do amor de ambas.


Diz o evangelista: Elas se aproximaram e abraçaram seus pés, em adoração (Mt 28,9). Essas mulheres que abraçaram os pés de Cristo são, na Igreja, modelos da pregação evangélica. Merecem essa graça devido ao ardor de sua carreira; tocaram os pés do Salvador com tamanha fé que lhes foi concedida a honra de abraçar a glória divina.

Lecionário Monástico V. III - Tempo da Páscoa