ANO C – VII TP - Ascensão do Senhor (Lc 24, 46-53)
Jesus, a missão da Igreja e do Espírito

 

O texto final do evangelho de São Lucas gira em torno de três temáticas:
1- A ressurreição de Jesus (24, 44-46);
2- A vinda do Espírito Santo com a missão da Igreja (24,47-49);
3- A ascensão (24,50-53).
Exporemos brevemente o significado de cada um desses temas.
1- A Ressurreição é interpretada como cumprimento da antiga aliança de Israel. O relato da páscoa de Jesus como triunfo pessoal definitivo se traduz em Lucas na forma de ascensão.


2- A ressurreição de Jesus se expande no envio do Espírito (24,49) e é atestada na missão eclesial (24, 47-48). João tinha batizado na água, mas o Cristo encherá da força do Espírito e do fogo (Lc 3,16; At 1,5). A vinda do Espírito condensa, concretiza e expande toda a verdade de Cristo; para que o seu caminho possa ser o nosso caminho, deveríamos receber a sua mesma força, e Jesus subiu ao Pai, ele no lá deu.


A missão que Jesus confia aos seus por meio do Espírito apresenta dois aspectos: Por uma lado é testemunha da vida e da vitória de Jesus (24, 46-48), testemunhos dos fatos e das palavras de amor que ele pregou, o caminho de serviço até a morte. Mas por outro lado ser testemunha de Jesus significa pregar, ou melhor propagar entre os homens o ideal da conversão e o perdão dos pecados. Aquilo que Jesus dissera no curso de sua vida, agora é uma realidade aberta para o mundo: a conversão é possível, o perdão é para todos, a graça de um caminho que conduz a Deus, a verdade de uma autêntica reconciliação entre os seres humanos.


3- Em terceiro lugar a verdade de Jesus, por Lucas, é verificada na ascensão, a subida ao Pai. Aqui termina o caminho de Jesus (cf.9,51) e estabelece a verdade de sua mensagem, seu valor e sua promessa. Assim se esclarece o conteúdo da paixão para o centro do qual se encontram as palavras: “O Filho do homem se assentará á direita do Pai”.

Com a ascensão se encerra o tempo das aparições e se revela a profundidade da Páscoa. Jesus, que caminhou com os homens, Ele é agora a meta do desenvolvimento da história. Portanto a sua verdade, não é um momento do passado. A sua mensagem transcende a terra, e se apresenta como um dom que transcende toda a nossa ansiedade... A magnificência de Deus, a realidade de Jesus se apresenta com profundidade e raiz, fundamento, verdade e meta da vida dos homens.

 

Ano C - VIª Domingo de Páscoa (Jo 14, 23-29)

Das homilias de São Gregório Magno, papa
(Hom.30, 1.2: PL 76, 1220-1221)


A autenticidade do nosso amor se manifesta por nossos atos


Deus é amor (IJo 4,8.16). Quem, com um coração puro, deseja Deus, já possui aquele que ama. Com efeito, ninguém poderia amar a Deus se já não possuísse aquele que ama. Mas, se perguntássemos a alguém dentre vós se ama a Deus, com toda confiança e serenidade da alma tal pessoa responderia: sim, amo.


Ora, no princípio da leitura do evangelho de hoje, vós ouvistes o que disse a Verdade: se alguém me ama guardará minha palavra (Jo 14,23). A autenticidade de nosso amor se manifesta por nossos atos. Foi o que levou São João a escrever sua carta: Se alguém disser: “Amo a Deus”, mas não guarda seus mandamentos, é um mentiroso (cf.Jo 4,20). Nós amamos verdadeiramente a Deus se, para cumprirmos seus mandamentos, combatemos contra nossas paixões. Pois, quem ainda se deleita com desejos impuros, certamente não ama a Deus, visto que sua vontade a ele se opõe.


Meu pai o amará, e nós viremos a ele e faremos nele nossa morada (Jo 14,23). Pensai, caríssimos irmãos, na alegria imensa que será para nós receber a Deus na morada do coração! Se, por acaso, algum amigo rico e poderoso vos quisesse visitar, imediatamente toda a vossa casa seria limpa para que, à sua chegada, nada lhe pudesse chocar o olha. Lava, pois, a solidez das más ações aquele que prepara para Deus a morada de sua alma.


Prestai atenção, porém, no que a verdade afirma: Nós viremos e faremos nele nossa morada. De fato, o Senhor pode passar pelo coração de certas pessoas, sem que ali estabeleça sua morada; porque, embora tais pessoas, nos momentos de compunção, percebam o olhar de Deus, no tempo da tentação, esquecem o objeto de seu arrependimento, e recaem em seus pecados como se jamais os houvessem lamentado.


Todavia, no coração dos que realmente amam a Deus e guardam seus mandamentos, o Senhor vem ali e faz sua morada. Pois o amor de Deus os penetra de tal maneira que, desse amor, no momento da tentação, já não se podem mais separar.


Ama verdadeiramente a Deus aquele cuja alma não se deixa dominar por prazeres desonestos. Na verdade, quanto mais nos deleitamos com os bens terrenos, tanto mais nos afastamos do amor das coisas do alto. Por isso, pode-se acrescentar: Quem não me ama, não guarda minhas palavras (Jo 14,24).


Caríssimos irmãos, voltai-vos para o mais íntimo de vossas almas e examinai se, realmente, amais a Deus. Entretanto, que ninguém confie nessa resposta, sem que a tenha confrontado com a própria maneira de agir. No que diz respeito ao amor do Criador, sejam examinadas a língua, a mente e a vida. O amor de Deus jamais permanece inoperante. Se existe, realiza grandes coisas, se resiste a atuar é porque é inexistente.

Ano C - Vª Domingo de Páscoa (Jo 13, 31-35)

Um Mandamento Novo


Manifestação da última vontade. À guisa de testamento, Jesus assegura aos seus discípulos um mandamento novo: o amor mútuo. Em que sentido é o mandamento novo do amor? Onde está a novidade radical? O amor ao próximo figura já entre as prescrições impostas ao israelita do Antigo Testamento. Também a formação tem o sabor próprio do Antigo Testamento: amarás ao próximo como a ti mesmo (Lv 19,18). Todavia, segundo a regra preliminar, nota-se imediatamente que o próximo, a que se refere o livro Levítico é o compatriota. É certo que o conceito de próximo é reduzido para Israel e ao prosélito.


A novidade do mandamento de Jesus consiste no universalismo, abatendo toda barreira de qualquer tempo. O conceito de próximo equivale, simplesmente, ao conceito de homem. Porém, isto dificilmente poderia ser apresentado como novidade radical. Jesus não foi nem o primeiro nem o último a descobri-lo e nem a formulá-lo.
A palavra “mandamento” é característica da carta de São João. No evangelho, a parte em que compara com maior freqüência é o discurso do adeus (cc14-17). Isto pode dar uma idéia para descobrir a verdadeira “notícia”, o qual encontra-se nas motivações fundamentais, que são os seguintes:


a) O amor é recíproco é novo, porque é a mesma linha do mandamento que Jesus recebeu do Pai: dar a vida para que os homens tenham a vida. Este foi o mandamento que Jesus recebeu do Pai: (10,18; 12,49-50; 14,31; 15,10.)
b) É novo, porque reflete a verdadeira relação com o divino. A relação do homem com Deus é uma relação de amor, semelhante àquela que existia entre o Pai e o Filho.
c) É novo, porque não somente é “edificante” para os outros, mas é revelador do amor que existe entre o Pai e o Filho. Assim, não é somente edificante e manifestativo do amor que existe entre o Pai e o Filho, mas é fundamento sobre esse mesmo amor.
d) É novo, porque introduz no tempo a nova etapa que foi inaugurada com a pessoa e a obra de Jesus: “as trevas envolviam o mundo, mas já brilha a verdadeira luz” (Jo 2,8). Jesus entregou-se à humanidade, morreu e ressuscitou, precisamente, para inaugurar o novo tempo.


Por todas estas razões, o mandamento novo de Jesus é um “testemunho” característico dos discípulos de Jesus. A relação ao modelo ou a medida do amor, “como eu vos amei”, deve ser compreendida, tendo em conta o contexto imediato, o lava pés. O lava-pés refere-se a todo ato de Jesus, sua entrega total que culmina na morte. Assim deve ser compreendido o amor recíproco.


Aparentemente, este mandamento do amor mútuo pode ser interpretado como a redução de um preceito universal e mais exigente, que inclui também o amor aos inimigos (Mt 5,44). Contudo, as coisas são assim somente vistas de forma muito superficial. O amor mútuo imposto aos cristãos tem característica especial, porque, como havíamos dito deve refletir o amor que existe entre o Pai e o Filho (15,12-15). E a insistência deste amor deve ser a grande característica do cristianismo, característica que deve dar testemunho de quem pratica esse amor militante no discipulado do Mestre.

Comento della Bibblia Liturgica Edzione paoline, Madrid, 1990

Ano C - IV Domingo Jo 10,27-30

Do Comentário sobre o Evangelho de São João, de São Cirilo de Alexandria, bispo
(lib.7, cap. 10,26: PG 74,20)

Aqueles que Crêem, pela graça divina, seguem os passos de Cristo
A marca distintiva das ovelhas de Cristo é sua disposição para a escuta e sua docilidade para a obediência, enquanto as outras se caracterizam pela desobediência.


O verbo escutar, nós compreendemos no sentido do aquiescer ao que é dito. Na verdade, aqueles que escutam a Deus são por ele conhecidos, pois ser conhecido significa estar unido. Não há ninguém que seja inteiramente ignorado por Deus. Com efeito, quando afirma: “ Conheço minhas ovelhas” (Jo 10,14) Cristo quer dizer: “Eu as acolherei e as unirei a mim misticamente e por uma união de amor”.


Podemos afirmar que, ao fazer-se homem, ele se uniu à humanidade toda por uma união de natureza e de consanguinidade. Assim procedeu, para que todos nos unamos e nos assemelhemos a Cristo por uma relação mística, em virtude de sua encarnação. Aqueles, porém, que não guardam a semelhança de sua santidade, lhe são estranhos.


Disse ainda: Minhas ovelhas me seguem (Jo 10,27). De fato, aqueles que crêem, pela graça divina, seguem os passos de Cristo. Não obedecem mais aos preceitos da lei, que eram figuras, mas, seguindo pela graça divina os preceitos e a palavra de Cristo, elevam-se até sua dignidade, sendo, por conseguinte, chamados filhos de Deus (IJo 3,1). Quando Cristo sobe ao céu, eles também o acompanham.


O Senhor promete aos que o seguem, dar-lhes a recompensa e o prêmio da vida eterna. Promete ainda preservá-los da morte e da corrupção, bem como dos castigos reclamados pelo juiz, contra os que cometeram transgressões. Cristo, pelo fato de dar sua vida, mostra que, por natureza, é a vida em pessoa; e que essa vida ele a dá de si mesmo, sem recebê-la de outro.


Por vida eterna (Jo 10,28), compreendemos não essa interminável sucessão dos dias que todos, bons ou maus, possuirão depois da ressurreição, mas a vida que passaremos na alegria. Podemos também compreender a vida no sentido de Eucaristia. Por ela, Cristo enxerta em nós sua própria vida, fazendo com que os fiéis participem de sua carne. Pois ele disse: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna (Jo6,54).

 

Ano C -IIIº Domingo de Páscoa (Jo 21, 1-14)

Dos Sermões de Santo Agostinho

(Semo Guelferbytanus 16, 1-2:PLS 2, 579-580)


Amemos também a Cristo e nada nos seja mais caro do que ele


Eis que o Senhor, depois de sua ressurreição, aparece novamente aos discípulos. Interroga Pedro e o obriga a confessar três vezes seu amor, a ele que, por medo, três vezes o negará. Cristo ressuscitou na carne, e Pedro segundo o espírito; pois, enquanto o Senhor morria sofrendo, Pedro morria negando. Cristo Senhor ressuscitou dentre os mortos, e Pedro ressuscitou graças ao amor de Cristo para com ele. Àquele que a agora o confessava, interrogou sobre seu amor, e confiou-lhe suas ovelhas.


Mas, o que Pedro dava a Cristo, pelo fato de amar a Cristo? Se Cristo te ama, o proveito é teu, não de Cristo. Se amas a Cristo, é ainda para proveito teu, não de Cristo. Entretanto, o Senhor, querendo mostrar como os homens devem provar que o amam, manifesta-o claramente, mencionando suas ovelhas: Tu me amas? – Eu te amo. Cuida das minhas ovelhas (Jo 21, 16.17). Perguntou uma, duas, três vezes. Pedro nada lhe respondeu a não ser que o amava. O Senhor nada lhe perguntou a não ser se ele o amava. Cristo não confia a Pedro coisa alguma senão o pastoreio de suas ovelhas. Amem-nos, e estaremos amando a Cristo.


Com efeito, ele que é Deus eternamente, nasceu como homem no tempo. Apareceu aos homens como um homem e filho do homem. Sendo Deus no homem, realizou muitos milagres. Enquanto homem, padeceu muitos sofrimentos da parte dos homens, mas ressuscitou depois da morte, porque Deus estava no homem. Passou ainda quarenta dias na terra, homem no meio dos homens. Depois, perante seus olhos, subiu aos céus como Deus no homem, lá onde está sentado à direita do Pai. Tudo isso nós cremos, embora não vejamos. Recebemos ordem de amar a Cristo Senhor, a quem não vemos, e exclamamos todos, dizendo: “eu amo a Cristo”.


Quem não ama seu irmão, a quem vê, como poderá amar a Deus, a quem não vê? (1jo 4,20). Mostra que amas o Pastor, amando as ovelhas, pois as ovelhas são os membros do Pastor. Para que as ovelhas fossem seus membros, dignou-se ser ovelha; para que as ovelhas fossem seus membros, foi como um Cordeiro levado ao matadouro (Is 53,7); para que as ovelhas fossem seus membros, foi dito a seu respeito: Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo (Jo 1,29). Mas esse cordeiro possui muita força. Queres saber o quanto é forte? O cordeiro foi crucificado e o leão foi vencido.


Vede e reconhecei com que força o Senhor Cristo governa o mundo, ele que, por sua morte venceu o demônio. Amemos, portanto, também a Cristo e nada nos seja mais caro do que ele.

Ano C -Domingo In Albis

Encontro com os discípulos (Jo 20, 19-23)


Jesus aparece aos discípulos. É uma aparição muito importante, lembrado também em São Paulo no seu elenco de aparições (1Cor 15,5: apareceu aos doze). De qualquer modo, o quatro evangelho tem impresso a narração e sua característica específica: “a paz esteja convosco”. É algo mais do que uma simples saudação. Como o Pai me enviou, também eu vos envio. Também esta sentença pertence ao projeto joaninho, que se faz ouvir frequentemente da boca de Jesus nos discursos do adeus.


Recebei o Espírito Santo. Foi a primeira esperança que a Igreja experimentou. O Espírito era presente e operante nela. Ao lermos atentamente os Atos dos Apóstolos, compreenderemos que o verdadeiro protagonista em todo o livro é o Espírito. O Espírito podia ser esperado de diversas maneiras e suas manifestações são múltiplas. Poder-se-ia discutir até mesmo o momento no qual esta nova realidade começou a viver naqueles homens e naquelas mulheres e a transformá-los. Era, todavia, indiscutível a sua presença na Igreja como uma realidade viva e operante desde o princípio.


A tentativa de descobrir o modo de sua vinda comportava necessariamente o recurso da linguagem metafórica (recorda-se At 2). O quarto evangelho emprega uma outra metáfora proveniente do Antigo Testamento. O Senhor “soprou” como na ocasião da criação do mundo (Gn 2,7; ver Ez 37, 7-14) Sopro, vento, hálito podem ser sinônimos do Espírito tanto na língua hebraica quanto na grega. O dom do Espírito da parte de Jesus aos seus discípulos é descrito como o dom da vida que Deus comunicou ao homem na sua origem. Ora, de fato, estamos na origem de uma nova humanidade, estamos diante de uma nova criação.


Porque aparece a vida, deve ser eliminada a morte. O dom do Espírito é comunicar com poder contra o pecado, poder que Jesus transmite aos discípulos e aos sucessores dos doze. O texto paralelo de Mateus (16,19; 18,18) é citado como explicativo e esclarecedor. João reformula a palavra de Jesus (“chave”, “ligar”, “absolver”) para tornar mais compreensivo ao mundo grego. Poder de perdoar e de decidir se a posição de qualquer membro da Igreja exigia que dela fosse excluído. A autoridade por causa de uma decisão, assim, importante, deveria vir de Jesus mesmo (é particularmente significativo que o quarto evangelho tenha selecionado este poder que Jesus entrega aos seus discípulos sobre o pecado, porque, neste evangelho falta até aqui o conceito de perdão dos pecados).


A ressurreição é um acontecimento estreitamente sobrenatural; e não é de estranhar que nem todos os discípulos fossem convictos desta realidade. Mateus aqui tem transmitido uma notícia muito significativa: “alguns duvidavam” (Mt 28,17). João aqui apresenta um exemplo concreto aquele de Tomé que chega a ser o paradigma daquele que exige prova evidente para crer. Não é um paradoxo? Ao menos no quarto evangelho percebe-se nesta linha.


Modelo de incredulidade e de fé. No quarto evangelho encontramos a melhor confissão da fé: “Meu Senhor e meu Deus”. O Antigo Testamento reserva estes dois títulos a Yahweh. E nesta confissão de fé de Tomé o leitor compreenderá a relação de Jesus com o Pai (tema que Jesus muitas vezes pronunciou). A confissão de fé de Tomé é a autêntica confissão de fé do crente; e os crentes a emitem sem exigir prova. Por estes Jesus os proclama bem-aventurados.


Jesus fez muitos outros sinais... São palavras de sabor exclusivo. Aqui, originalmente, terminava o evangelho. O capítulo 21 é uma adição à guisa de apêndice; mas isto não quer dizer que não pertença ao evangelho. À luz destas palavras conclusivas deve ser lido todo o evangelho. Esta é a chave de leitura para a compreendê-lo. Digamos que o seguimento de Jesus deve conduzir a fé para descobrir em Jesus o Messias (título judaico), e mais ainda o Filho de Deus dá a vida eterna àqueles que o buscam.

 

Comento della Bibblia Liturgica Edzione paoline, Madrid, 1990